Infelizmente, isso que chamamos de "O Golpe", também é uma parte importante da História da Casa Nuvem. O Golpe, e a posterior invasão, foi um corte violento, inesperado e traumático no nosso espaço e nas nossas vidas, cujas consequências, ainda  hoje, continuam. Com o texto a seguir, tentamos fazer um resumo dos acontecimentos desde o momento do início do golpe, dezembro de 2015, até hoje abril de 2019. Para mais informações acesse os links abaixo.

Em dezembro de 2015, Indianare Siqueira, referência do movimento trans no Rio de Janeiro e companheira nossa da Casa Nuvem desde junho de 2014, começou uma luta pelo nosso território usando a transfobia como arma. Foi subindo o tom das ameaças nos canais de comunicação interna, publicou posts públicos difamatórios e, em meados de janeiro de 2016, se colocou numa postura de guerra irredutível. Cortou totalmente a comunicação com as pessoas da Nuvem, mas, ao mesmo tempo, continuou usando a casa para dormir, fazer festas, encontros e reuniões. Isto é, ocupou a casa enquanto ainda estávamos dentro.

No dia 12 de janeiro de 2016, Indianara enviou mais uma mensagem de ódio ao nosso grupo de Whatsapp:

"Sim, vou usar o espaço e não pagarei nada por isso. Vcs não podem pagar!?! Deixem que eu pago. Mas me liberem o espaço de vocês: Pessoas cisgeneras nojentas que eu pisarei a fundo. Que os cisgeneres sejam agora escravos de pessoas trans. Ah... E não falem comigo. Só MSG e texto. Obrigada."

No inícios de fevereiro, no Carnaval de 2016, Indianare lançou nas redes a campanha “Sangue nas Nuvens” com o objetivo de boicotar o bar da Casa Nuvem que era nossa principal fonte de renda, fragilizar o grupo e criar racha, e, pouco depois, no dia 28 de fevereiro declarou publicamente a invasão da Casa e o nascimento da Casa Nem como espaço de acolhimento de pessoas trans sem teto.  

O golpe e a invasão da Casa Nuvem, um espaço LGBT do Rio, gerido por uma assembleia de pessoas que, na sua maioria, eram LGBT, foi perversamente disfarçado como a "liberação de um espaço transfóbico”, houve uma campanha pesada de difamação, ameaças de morte e a apropriação - não só da nossa casa - mas de grande parte dos nossos pertences.  Um espaço de ativismo político e cultural da cidade foi violentado brutalmente mas as centenas de pessoas que faziam parte da Nuvem ampliada ficaram em silêncio por que, se reagirem, seriam atacadas com a escusa da transfobia. 

Por diferentes motivos, a assembleia da Casa Nuvem decidiu não travar batalha, não ligou para a polícia e se viu coagida a entregar o espaço e a confiar na palavra de Indianara que se comprometeu em assumir o contrato de aluguel do imóvel até o dia 5 de maio de 2016. Para evitar mais ataques nas redes sociais e facilitar a rápida transferência do contrato, as pessoas da Casa ficaram em silêncio. Sete meses depois da invasão, em setembro de 2016, o espaço ocupado pela Casa Nem continuava sob a responsabilidade legal de pessoas da Casa Nuvem. 

Neste contexto, no dia 15 de setembro de 2016, decidimos nos liberar do silêncio com o #.liberanuvem que tinha o objetivo de fazer pressão para exigir a transferência do contrato de aluguel ou a saída do imóvel. O #liberanuvem dava informações sobre o golpe, denunciava a dívida que estava sendo gerada pela Casa Nem em nome das pessoas da Nuvem que tinham seus nomes no contrato, e informava que os donos do imóvel iriam iniciar um processo de despejo.  Como consequência dessa pressão, em outubro/novembro de 2016, foi realizado um novo acordo pelo qual Indianara sairia da casa até o dia 5 de fevereiro de 2017. Paralelamente, um crowfunding foi lançado para pagar as dívidas geradas pela Casa Nem (uns 30.000 reais na época). Indianare não liberou a casa em fevereiro como tinha sido acordado. A ocupação se manteve e os aluguéis voltaram a não ser pagos criando aumentando a dívida em nome das pessoas da Nuvem. 

Também em novembro de 2016, após as eleições municipais, algumas pessoas da Casa Nuvem denunciaram o golpe de Indianara à Comissão Nacional de Ética do Psol mas, nesse momento, não não houve resposta.

 

Em janeiro de 2017, o processo de despejo dos donos contra os locatários da Nuvem foi iniciado e, com o intuito de acelerar o processo no judiciário, assim que tivemos a oportunidade, enviamos ao juiz uma aceitação desse despejo. Perante a possibilidade iminente de despejo, Indianare entrou no processo como locatária de fato. Essa ação teve duas consequências: por um lado, e pela primeira vez, Indianare aceitava publicamente ser responsável pela dívida, mas por outro lado, provocava um atraso no processo de despejo que poderia fazer com que o mesmo demorasse anos para ser concluído aumentando a dívida. Para nós, as pessoas que tínhamos nossos nomes no contrato de aluguel, era preferível um despejo rápido com uma dívida em torno de 30.000 reais sob a nossa responsabilidade que o atraso do despejo com uma dívida muito maior compartilhada com Indianare.  

Meses mais tarde, em julho de 2017 e como medida de pressão, voltamos a reativar a denúncia contra Indianare no PSOL. Dessa vez, conseguimos que o diretório municipal do Rio de Janeiro aprovasse o envio de uma nota de advertencia a Indianara pedindo para ela pagar as dívidas e assumir o contrato ou liberar o imóvel. A resposta de Indianare foi atacar o PSOL. Acreditamos que foi nesse momento, perante a constatação de que não existiria diálogo nem mediação possível, que o caso passou a ser considerado pela Comissão Nacional de Ética do partido.

Após vários procedimentos jurídicos das advogadas de Indianare para atrasar o processo, o despejo só acabou acontecendo no dia 5 de dezembro de 2018. Neste momento (abril de 2019), estamos á espera da convocação do juiz que decidirá como será paga uma dívida que ultrapassa os 100.000 reais.

Em abril de 2019, a executiva nacional do PSOL formada por 61 pessoas aprovou por unanimidade (com uma abstenção) a expulsão de Indianare Siqueira do partido. Para tomar sua decisão, a executiva tomou em consideração o parecer da Comissão de Ética do PSOL (ver aqui) e as próprias declarações públicas de Indianare recolhidas em posts e videos falando da "ocupação" do nosso espaço e da nossa expulsão. Ver um dos videos aqui.

+ SOBRE O GOLPE

DENUNCIA COMITE ETICA PSOL

 

 

OUTRAS INFORMAÇÕES