Dezembro 2021

A Casa Nuvem parou suas atividades em março de 2016 a causa de um processo de assédio moral grupal iniciado em novembro de 2015 que teve o objetivo de obrigar às pessoas da Nuvem a "ceder" sua casa e a guardar silêncio.  Aqui podes encontrar informação sobre esse assédio. 

Outra fonte de informação sobre o caso é o Dossiê "Uma Nuvem que virou Nem" escrito em novembro de 2016 por uma das fundadoras da Casa Nuvem e que descreve os motivos e o modus operandis do golpe e posterior invasão..

Outras informações:

Respondendo a algumas perguntas e comentários 

“Como foi possível a apropriação na marra de um espaço de arte e ativismo político que acolhia tantas pessoas e projetos, por que vocês não chamaram à policia"?

Só a existência de um mobbing (assédio moral grupal) que desbordou-se às redes configurando um processo de linchamento virtual, explica a entrega do espaço Casa Nuvem, o silêncio e a falta de denuncia na policia. Mas na epoca, o estado do grupo foi de total confusão e paralisia e ninguém soube identificar o que estava acontecendo. A irracionalidade da situação e o medo bloqueou o espírito crítico e provocou uma sensação de falta de opções de fuga. Num processo de assédio, quando o entorno não é capaz de reagir e apoiar às vítimas, a submissão parece ser a única solução possível. Na epoca, a unica manera de diminuir o boicote, as ameaças de escracho e a enxurrada de humilhações e difamações parecia ser a "cessão" do espaço.

É isso aconteceu porque houve colaboradores, houve um desbordamento do assédio às redes com muitas pessoas colaborando com o grupo assediador nas dinámicas de descrédito, humilhação e culpabilização das vitimas. Algumas com um grande entusiasmo, outras de maneira mais tácita. Também houve a cumpricidade das centenas de pessoas que usufruiam a Casa Nuvem como seu espaço de socialização, lazer, trabalho e ativismo que observaram o que estava acontecendo mas se afastaram para não se "contaminar". "São as "testemunhas silenciosas". O medo foi maior do que o desejo de ajudar . O processo de assédio se desenvolveu num contexto socio-politico no qual era dificil mostrar solidariedade com as vítimas sem virar uma delas e, de esta maneira, criou-se um ambiente de insensibilidade à brutalidade dos fatos acontecidos e às violências psicológicas, emocionais e patrimoniais que seguiram.

Outra razão que posibilitou o golpe é que existe um grande desconhecimento de como opera a violência psicológica, suas formas, dinámicas e  consequências, e uma grande dificuldade para as vítimas se reconhecerem como tais. O golpe na Casa Nuvem só foi possível porque no contexto socio-cultural do entorno Casa Nuvem humilhações e comportamentos abusivos foram naturalizados e usados por pessoas com poucos escrúpulos como uma tecnologia eficaz para gahar visibilidade e poder.  

Por qué falamos de assédio moral?

O assédio ocorre quando de maneira repetida se direciona uma enxurrada de ações sociais negativas contra uma pessoa - ou um grupo de pessoas para criar um ambiente humilhante, degradante, constrangedor, desestabilizador e hostil contra elas.

 

Podes identificar um assédio quando há um lançamento continuo e insistente de suspeitas, insinuações, boatos e mentiras em público e em privado; um uso ostensivo, seletivo e instrumental da indignação;  burlas,  humilhações e tentativas de gerar indiferença ao sofrimento inflingido. Em assédios mais pesados, como o que aconteceu contra a Casa Nuvem, podem também existir ameaças e uso das redes sociais como ferramenta de exposição pública ao escárnio.

 

O "stonewalling" ou muro de silêncio pelo qual quem assedia corta de maneira abrupta e radical a comunicação com a pessoa ou grupo assediado é a primeira sinal de que um caso de assédio está acontecendo.

Num assédio, a pessoa que assedia se coloca como promotora, juíza e algoz deixando às vítimas sem possibilidade de fuga. "Elas "devem ‘aceitar’ provocações, gozações, desqualificações e ridicularizações sem reclamar ou questionar.” (Barreto, 2005).

O objetivo de um assédio é levar às vitimas à auto-anulação e à desistência. Desistência da própria autonomia no caso de assédio na familia, desistência de um trabalho no caso de um assédio laboral, ou a desistência de um espaço físico ou simbólico como foi o nosso caso. 

"O assédio moral busca a submissão forçada das vítimas. Pessoas assediadas se sentem à mercê da vontade do instigador". (Hirigoyen, 2014). 

“Houve transfobia no espaço e isso teria motivado a ocupação e a criação da Casa Nem” 

A transfobia é estrutural na sociedade mas, a Casa Nuvem não era nem mais nem menos transfóbica, que qualquer outro espaço LGTBI do Brasil. No caso da Casa Nuvem, a transfobia foi usada como um dispositivo de extorsão para a apropriação do espaço físico e simbólico. O uso banal da transfobia desviou a atenção da agressão que estava ocorrendo e garantiu a impunidade a traves do silenciamento.

Num processo de assédio é muito comum o uso de palavras "talisma". Estas palavras, no caso a "transfobia", ajudam ao grupo agressor a reforçar o fenômeno de transferência pelo qual a culpa da agressão é transferida à vítima ate o ponto de que ela mesma chega a duvidar de sim própria e a introjetar a culpabilidade. "A vítima, imersa em dúvidas e culpa, não consegue reagir".

“Sabemos que os Nuvens foram postos pra correr de lá depois do descaso transfóbico a uma pessoa trans em suas festas. Papo de agressão física, teve sangue no chão e os Nuvens optaram por seguir o baile (...)”. 

 

"No assédio midiático se acostuma a preparar uma encenação para punir a vítima e prejudicar sua imagem pública. É um castigo e execução extrajudicial que não dá opção à inocência ou outra versão que não seja a do instigador do linchamento. Emseguida, a condenação pública se manifesta confundindo o justo com o justiceiro". (Marina Parés Soliva)

 

No nosso caso, o grupo assediador criou uma campanha midiática bastante dramática que transmitia que uma mulher trans teria sofrido uma agressão que fez ela sangrar e, enquanto a mulher sangrava, as pessoas da Casa Nuvem só se preocuparam em seguir a festa. A realidade do que aconteceu foi muito diferente, e toda a info sobre o que realmente aconteceu está aqui. A campanha de escracho e boicote ao nosso bar  incluía vídeos, dezenas de posts e memes como "Sangue nas Nuvens" ou "Na nuvem a purpurina virou sangue". 

 

“Para justificar o descrédito público da vítima, previamente, o instigador deve inventar um subterfúgio que choca o público e o confunde através de um escândalo para posteriormente obter o apoio do cidadão para a campanha pública de descrédito e humilhação e assim deixar a vítima sem apoio”. (Marina Parés Soliva, “O assédio na mídia”).

 

É muito importante saber identificar um assédio moral para evitar convertir-se em colaborador dele. Antes de apoiar uma denúncia nas redes, verifique os fatos, aprenda a distinguir entre uma campanha de denúncia genuína e uma campanha em que a denúncia é usada como desculpa para justificar um assédio.

“Se não foi como resposta à transfobia, por que se invadiu a Nuvem?”

A invasão teve um motivo prático: Indianara Siqueira e o outras pessoas do projeto Prepara Nem levavam algumas semanas  procurando um espaço para o projeto.

O desejo de se apropriar da Casa Nuvem fica evidente neste trecho do depoimento na Comissão de ética do Psol da pessoa que iniciou a briga que serviria como justificativa à invassão da Casa (página 31). 

Eu e a Dani ficamos pensando (…) como a gente pode fazer com que o Prepara Nem conseguisse ter um espaço. E aí eu fiquei pensando muito em porque não ser alí naquele espaço? (…) ainda assim outras casas estavam sendo procuradas”.

“Do encontro com a Casa Nuvem afirma que pode “perceber que eu estava dentro de um espaço onde eu encontrei amor, que é uma coisa muito dificil da nossa vida. E daí, começou a surgir sonhos e vontade de realmente poder ter um espaço. Por que não poder ter o espaço?”.

Esse desejo de apropriação fica também muito claro neste zap que Indianara enviou ao grupo da Nuvem no dia 14 de janeiro, um mês e meio antes da invasão:

“(...)me liberem o espaço de vocês: Pessoas cisgêneras nojentas que eu pisarei a fundo. Que os cisgeneres sejam agora escravos de pessoas trans. (...).”  Ver registro na página 19 aqui. 

"Acha que a expulsão de Indianara do PSOL foi feita de maneira justa?"

Existiam tantos registros públicos de Indianara se orgulhando com deboche de haver invadido a Casa Nuvem, que nem precisava de todo um longo processo da Comissão de Ética do PSOL para expulsá-la.  A expulsão deveria haver sido imediata no momento em que o partido recebeu e veriuficou esses registros. Mas o longo trabalho da comissão de ética foi importante pois reuniu de maneira sistematica os depoimentos de 13 pessoas (metade deles de testemunhas chamadas por Indianara) e centenas de  páginas de materiais que nos servem como registro formal dos fatos acontecidos. O trabalho da comissão também serviu para o PSOL poder afrontar o comportamento fascistóide de algumas pessoas do partido que estavam usando táticas de assédio moral de maneira recorrente como arma para ganhar espaços de poder.

“Indianare também diz que houve transfobia no processo de expulsão do PSOL por associarem sempre a imagem da travesti como violenta, marginal. (…) Há alguma autocrítica nesse sentido? 

A imagem dela está associada à violência porque Indianara usou a violência de manera recorrente, pública e notória como via para conseguir diversos objetivos: admiração, votos e poder de coação. Há dezenas de registros públicos em forma de posts e videos com ameaças truculentas e videos onde se orgulha publicamente e com deboche de haver invadido e expulsado pessoas do seu espaço.

Para pessoas com trajetórias de vida forjadas na necessidade de sobrevivência há momentos onde a violência pode ser uma ferramenta de autodefensa, mas Indianara a usou contra suas próprias companheiras de casa e de partido como ferramenta de coação, extorsão e silenciamento. 

Na expulsão de Indianara do PSOL não pesou a transfobia, pesou o comportamento fascistoide de alguém que se achou no direito de apontar, julgar, condenar, castigar e violentar outras pessoas.

Vocês acham que houve má fé? 

Quando a gente admira a uma pessoa a tendência é se apegar às ideias e não querer enxergar de frente os fatos. Mas houve uma teatralidade e um uso tão despudorado da mentira que não havia como não enxergar a má fé. Mas foi muito difícil afrontar isso. Superar o medo, reagir e se defender implicava denunciar os fatos acontecidos e expor publicamente o lado perverso de uma pessoa que, além de haver sido a nossa parceira, tinha grande relevância social.

 

A ocupação da Casa Nuvem levou a criação da Casa Nem. O que vocês achavam da Casa Nem?  

O relato de que para que umas pessoas ganhem outras tem que perder, ou que para que um espaço surja outro tem que desaparecer, é um pensamento neoliberal e auto-destrutivo que foi usado de maneira naive como justificativa do processo de abuso. O direito à existência de um não deveria estar ligado ao direito de existência do outro. Esse é um falso dilema criado 

para forçar um ambiente de torcida de futebol onde se uma pessoa denuncia o golpe à Casa Nuvem estaria negando a potência de projeitos como Casa Nem. No mundo real, espaços coletivos como Casas Nuvem ou Casas Nem, são fundamentais. E ainda mais, numa cidade com um histórico de grave carência de espaços autónomos como é o Rio. Todos os espaços precisam ser fortalecidos e multiplicados, nunca destruidos.  

“Por que demoraram para denunciar as agressões? "

As vítimas de abuso psicológico demoram para reagir pois precisam de tempo para entender a realidade dos fatos e superar o medo a falar. De qualquer jeito, foram sete meses entre a invasão (março de 2016) e a primeira denuncia nas redes (setembro 2016) e a denuncia ao PSOL (novembro 2016). Mas ainda hoje muitas pessoas ficam caladas para poderem habitar com tranquilidade os espaços físicos, festivos, políticos e acadêmicos que compartilham com pessoas que formaram parte ativa do processo de assédio moral grupal. 

“Não cabe a uma instância partidária pautar os movimentos sociais (...) Era como se o PSOL Carioca chegasse pro MST e sugerisse que entregassem suas ocupações urbanas pros proprietários, na melhor boa vontade legalista de sempre.”

Este foi um dos comentários mais surreais que ouvimos. Nenhúm movimento de ocupação ocuparia um espaço habitado e ainda menos um espaço que era Ponto de Cultura Viva e lugar de encontro da galera LGBTI do Rio, dos Pontos de cultura da rede estadual, do GTs Pesquisa Viva, encontros do Foro de Dança, dos cicloativistas, midiativistas, etc.

“Pelo que eu soube, a Indianare (…) assumiu as dívidas judicialmente, é isso?” 

Não. Indianara não assumiu as dívidas judicialmente. Indianara pediu entrar no processo como ocupante da casa com o objetivo de atrasar o despejo. Isso fez ela ser também parte no processo e co-responsável da dívida junto aos outros quatro membros da Casa Nuvem que figuravam como locatários e fiadores do contrato. Mais info sobre as dívidas criadas pela invasão da Casa Nuvem aqui.