OS PARTICIPANTES DO PROCESSO DE ASSÉDIO MORAL

(Todas as citas sem nome são do livro Assédio Moral de Marie France Hirigoyen.

A pessoa instigadora do assédio.

É a pessoa que inicia o processo de assédio moral. É frequente que, em algum momento, se afaste e deixe que colaboradores, inclusive aqueles que recrutou no círculo mais íntimo das vítimas, perpetuem a situação de abuso. Existem assediadores seriais. São pessoas com uma alta capacidade de destruição psíquica e é importante saber identifica-las. Ver aqui o perfil de uma pessoa assediadora serial. 

Colaboradores tóxicos
Participam de maneira entusiasta nas dinámicas de difamação, humilhação e culpabilização das vítimas. Gostam do drama de um linchamento moral. Colaboradores tóxicos costumam adotar a linguagem e os modos abusivos e irrespeituosos do instigador principal. Algumas pessoas se dispõem a concordar e a fazer o que o assediador quer por estarem ganhando algo em troca com a situação, outras são movidas por inveja, ciúmes ou vontade de vingança. Colaboradores tóxicos costumam a recrutar outras pessoas para se juntarem ao grupo de assédio podendo causar um efeito de “embarque no bonde” ou “bandwagon” que pode levar a uma situação de assédio social (mobbing de grande alcance).

“(...) andam por aí fora a “recrutar” pessoas, um pouco na linha dos religiosos que vão de porta em porta, no intuito de tentar recrutar adeptos para a religião deles.” (Jaime Machado).


Colaboradores ingênuos
Os colaboradores ingênuos não podem imaginar que um ser humano poderia inventar mentiras e encená-las com tanta emoção. Acreditam de boa fé na causa que o grupo assediador promove. Tem medo de estarem no lado injusto. Podem ser seduzidas a adotar uma perspectiva unilateral pelo charme do assediador e esta sedução pode, ao mesmo tempo, ir unida a um medo a virar alvo. Pode haver medo de adotar uma posição que é considerada pelo entorno como politicamente incorreta. Também pode acontecer que a pessoa seja do tipo bajuladora e que, quando confrontada entre o dilema de lutar ou fugir, prefira fugir adotando a bajulação, fundindo-se com a personalidade forte e dominante do assediador para se sentir segura, e assim evitar ter que reagir aos abusos e sofrer as consequências. Também podem ser pessoas que, por diversos motivos, desejam fortemente ser aceitas pelo grupo assediador. Não é incomum que este tipo de colaboradores estejam experimentando algum grau de abuso ou manipulação pela mesma pessoa ou grupo que os incentiva a abusar do alvo principal.

Colaboradores tácitos 
Os colaboradores tácitos não dão apoio público ao processo de assédio mas agem de maneira a naturalizar a situação de abuso. Eles sabem instintivamente que é melhor estar na equipe mais forte. Podem ter participado, consciente ou insconscientemente, nas dinâmicas de descrédito, transmitindo confidências, comentários negativos, e boatos sobre as pessoas alvo. Podem também ter participado nas dinâmicas de gaslighting, questionando a existência do abuso, ou sua gravidade, ou ainda nas dinâmicas de culpabilização, acusando às vítimas de terem prejudicado o entorno comum (trabalho, grupo amigues, familia etc.), de haver difamado aos assediadores, provocado o assediador, etc. Podem ser pessoas muito próximas às vítimas e sua colaboração tácita produz nelas efeitos que podem ser graves.

As testemunhas mudas 
São as pessoas que, de uma forma ou de outra, pertencem ao círculo onde ocorreu o abuso. Observam o processo, sabem o que está acontecendo mas preferem olhar para o outro lado e sentir que o assunto não lhes diz respeito. Com este comportamento toleram que os alvos do assédio permaneçam indefesos e que se possa continuar lhes agredindo à vontade, tornando-se assim cúmplices por indiferença e omissão.

 

As testemunhas não mudas 
São as que dão apoio explícito às pessoas assediadas. Esse tipo de ação é muito importante tanto para a resolução do assédio quanto para a saude das pessoas-alvo. Por um lado, ajudam à vítima a fazer desaparecer as dúvidas sobre si e, por outro, promovem que outras pessoas do entorno saiam do silêncio e do bloqueio e reajam de forma positiva. Mostras de solidariedade para com as pessoas alvo costuma a desencorajar comportamentos de assédio.

As testemunhas burlonas

São pessoas que não estando nos circulos de influência do grupo agressor, enxergaram e entenderam a violência mas  também cairam em dinámicas de desumanização a través da burla ou da culpabilização pela falta de reação. Não entenderam a força de coação implícita num linchamento moral. Negam a dimensão do domínio que paralisa as vítimas e as impede de defender-se. 

"Foi mal mas eu nunca vou deixar de ridicularizar a situação. Não se deixa uma divida desse tamanho nem por filho, quem dirá por militância,.. vocês deram um mole que vai além do normal, alguma zoeira vcs tem que esperar, ok?"

​Vítimas e vitimarios, a colaboração das "nuvens nem"

“A arte em que o instigador de assédio se sobressai por excelência é a de confrontar umas pessoas com outras, provocar rivalidades (...)." 
 

O assédio moral contra a Casa Nuvem ainda continua ativo no sentido de que para habitar com segurança certos ambientes académicos, ativistas e  culturais do Rio de Janeiro existe uma pressão de "aceitação" e de silenciamento dos fatos acontecidos.

 

Num primeiro momento, o assédio teve como objetivo a apropriação do espaço tendo como alvo todas as pessoas que formavam o grupo nuvem e como resultado a total submissão do grupo.  Num segundo momento, e já com o primeiro objetivo conseguido, a situação de assédio teve como objetivo a manutenção de um estado de "sequestro moral" onde a chantagem financiera impederia qualquer tentativa de liberação do estado de dominio, cualquer reação e denuncia.

Nesta segunda etapa do assédio, pessoas que eram da Casa nuvem começaram a colaborar com o grupo assediador. 

Para sair do circulo do assédio "é preciso falar, pensar, entender, denunciar, apontar, indignar-se”. (Sousa e Tessler 2004). Mas a reação acostuma a levar a uma intensificação das dinámicas de descrédito e culpabilização:

"Na medida em que, por dominação, as vítimas se mostraram muito conciliatórias, agora tem que mudar de estratégia e agir com firmeza e sem medo do conflito". mas "A princípio, qualquer mudança de atitude por parte da vítima tenderá a provocar um aumento das agressões e provocações. O instigador tentará culpá-la ainda mais: (...).”

Quando o assédio se desborda e vira um assédio social é muito dificil se resistir às dinámicas de culpabilização. Com a pressão do grupo, e os efeitos do bandwagon,  as vítimas duvidam das suas próprias percepções e vivências e podem, inclusive "se colocar na situação paradoxal de defender a quem as ataca para não colocar lenha na fogueira” (Hirigoyen, 1998).

 

Várias pessoas que eram da Casa Nuvem se colocaram nesse lugar e passaram a defender a quem as atacava. Essas pessoas colaboram con o grupo agressor no encobrimento dos fatos e nas dinámicas de (auto)culpabilização numa aliança tácita que é mencionada por Marie-France Hirigoyen, no seu livro "Assédio moral: a violência perversa no cotidiano."

 

"As vítimas, num movimento altruísta ilusório, se resignam a se submeter aos abusos e, ao mesmo tempo que reclamam das atitudes negativas do agressor, seguem idealizando seus aspectos positivos”.  

“ (...) ao não modificar as condições que permitiram sua aparição, a violência continua. Nesses casos as vítimas costumam tentar manter a relação com o agressor podendo assim, produzir uma espécie de aliança tácita."

São vitimas e vitimarios e essa "aliança tática" é, por tanto, um comportamento que tem que ser comprendido como uma ferramenta de supervivência. Reagir e sair do círculo do abuso é dificil para as pessoas que precisam compartilhar os mesmos lugares de socialização que ocupam as pessoas do grupo assediador. Reagir é muito mais facil para as pessoas que, após a invasão, decidiram sair do Brasil.

“Quando se aceita a submissão, a relação instala-se nessa modalidade de forma definitiva: assim, quando elas se tornam incapazes de reagir e se abatem, as vítimas se tornam cúmplices do que as oprime. Sem nunca haver consentimento de sua parte, mas sim uma coisificação, elas se tornaram incapazes de ter seu próprio pensamento e só podem pensar como seu agressor”.

A permanência de vítimas - muitas vezes mulheres - em relacionamentos abusivos parece impensável para quem está vendo de fora, mas forma parte dos ciclos de violência psicológica. Elas negam a própria existência da violência psicológica, se auto-culpabilizam, foram elas que provocaram a agressão e merecem ser castigadas.

 

"Neste enredamento a vítima é apanhada em uma teia de aranha, mantida à disposição, atada psicologicamente, anestesiada e sem ter consciência de ter sofrido tamanha invasão".

 

Enquanto sigue existindo este enredamento psíquico na auto-culpabilização é muito dificil sair do estado de confusão e distinguir entre conflito e agressão.  Quando uma agressão é disfarçada de conflito criase uma equidistancia pela qual todas as pessoas implicadas se sentem ter uma parte de culpa.
 

 

Saber distinguir entre um conflito e uma agressão

Saber distinguir entre conflito e agressão é fundamental para poder fugir do ciclo de violência psicológica.

Conflitos e tensões são inerentes a qualquer ambiente onde as pessoas coexistam. Essas tensões causam problemas e desgastes, mas não precisam atingir a magnitude e a gravidade de uma situação de assédio moral.

Um conflito é um desacordo em que cada uma das partes mantém objetivos legítimos e legais, mas incompatíveis entre si. Num conflito as opiniões criticas convidam ao debate. A opinião crítica pode nos fazer sofrer, mas também nos faz refletir e, portanto, é um instrumento de melhoria. Em um conflito, portanto, há espaço para mediação. É possível estabelecer um processo no qual X e Y procuram um ponto de resolução possível. Em um assédio não. Não existe um espaço intermeio entre quem persegue a anulação e forçamento à submissão e quem exisge respeito à autonomia. 

 

As mediadoras

Muitas pessoas tentaram fazer algum tipo de mediação para a resolução do caso. A questão é que num conflito é possível a mediação mas num processo de assédio não pois o objetivo de um dos lados é a anulação do outro. 
 

O conflito costuma surgir da necessidade de mudança, “(...) cria um vínculo, nos obriga a levar em conta a posição do outro e a reconhecê-lo como interlocutor”. “Já no assédio moral se busca a submissão forçada. Pessoas assediadas se sentem à mercê da vontade do instigador”. (Hirigoyen, 2014) .

 

“O instigador se recusa a dialogar e a dar a menor explicação, bloqueia a situação e paralisa seu alvo. O problema não tem nome, porque o objetivo não é resolvê-lo, mas livrar-se daquela(s) pessoa(s). (Hirigoyen, 2014)
 

O efeito de gaslighting

A colaboração de pessoas que formaram parte importante da Casa Nuvem nas dinámicas de gaslighting ou de distorção da realidade produziu danos psicológicos importantes, que provávelmente afetaram também às próprias colaboradoras.

 

Por exemplo, numa carta de repúdio escrita ao PSOL, estas pessoas falam que "a transformação" da Casa Nuvem em Casa Nem "poderia ter se dado de maneira menos traumática se houvessem sido priorizadas estrategias de dialogo e mediação e não os ataques mutuos e disputas de narrativas".

Neste link se reunen alguns das dezenas de registros que lembram da nossa vontade desesperada de dialogo e a imposição cruel de um muro de silêncio no momento que estava rolando o linchamento virtual. Aí se mostra que o diálogo foi impossível na fase de acirramento do assédio que levou à invassão e continou sendo sempre dificil também na fase posterior onde houve uma dinámica de chantagem económica (violência patrimonial) a través da criação de dívida.

 

Parte desses registros que mostram a impossibilidade de diálogo foram escritos pelas mesmas pessoas que assinam a carta de repúdio ao Psol.  Durante muito tempo foi dificil entender que pessoas que tiveram as mesmas vivências e sofreram as mesmas consequências tivessem uma visão tão diferente dos fatos. 

Mas a criação de realidades alternativas que se adaptam aos interesses do grupo assediador é uma carateristica comum dos casos de assédio. E perante a distorção da realidade é comum que muitas vítimas se obcequem em reunir provas e registros que lhes ajudarão a ter confianças nas próprias memorias e vivências, é por isso que muitas vítimas de assédio criam sitios webs, páginas em redes sociais como recurso terapéutico e como uma maneira de ajudar a outras pessoas que estãpo passando pelas mesmas circunstâncias. 

 

Entender como funciona o assédio moral, conhecer suas dinámicas, fases e consequências nos ajuda  entender as atitudes de todas pessoas que são afetadas por ele, inclusive as atitudes das pessoas que assinam esse texto e que precisam manter à narrativa da "transição pacífica" que foi usada pelo grupo Nuvem no momento da invassão para parar o escárnio público.

Para nós que, após a invassão decidimos morar fora do Brasil é mais traumático guardar silêncio e menos traumático reagir; para quem ficou - e continua compartilhando os mesmos espaços de socialização que o grupo agressor - é mais traumático reagir e menos traumático guardar silêncio. Mas o trauma está sempre presente nos dois lados. 

 

Reconhecer o trauma

Mas entender como funciona um assédio moral , entender sua natureza de destruição moral, nos ajuda a comprender as atitudes de quem para se defender dele precisa reagir e as atitudes de quem precisar manter o silêncio. Ambas partes estão lutando para se recuperar do trauma. São mecanismos de supervivência psiquica que temos que considerar e respeitar.  

O denominador comúm de todas as pessoas afetadas é que tais situações são vividas com muita confusão. As vítimas, mesmo reconhecendo seu sofrimento não ousam imaginar que tenha havido violência e agressão. Não raro persiste a dúvida: Será que não sou eu que estou inveintadndo tudo isso como alguns já me disseram? 

E assim, o trauma fica tão atravesado de tantas maneiras que é comum que este tipo de processo termine com a destruição de circulos sociais tão fortes como o que havía em torno à Casa Nuvem. A confusão no grupo é tão abrumadora que todos os relacionamentos sofrem e amizades tenem a se desfazer mesmo entre as pessoas que não participaram ativamente nas dinâmicas de descrédito e culpabilização. 

As vítimas do assédio

 

 

 


 

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