"Oi Helena, prazer, sou grande admiradora dos teus textos e acho eles muito necessários nestes tempos tão turbulentos.

 

Imagino que tuas palavras venham dadas do fato de que, como vc fala, vc tem acompanhado de longe a questão. Se vc tivesse acompanhado mais de perto, de repente, não chamaria de “erro” à invasão/golpe de um espaço construído coletivamente com muito esforço e carinho por muitas pessoas ao longo do tempo. Em vez de buscar um espaço próprio para seu projeto NEM, Indianara destruiu nosso espaço, e os muitos projetos que lá aconteciam, entre eles, o próprio Prepara Nem e isso não é “um erro” isso é injustificável. 

Coações, ameaças e difamações não são “erros”, são crimes. Fomos coagidas de maneira violenta a entregar o nosso espaço e, além disso, tivemos que suportar uma campanha de difamação violentíssima que foi lançada nas redes com o objetivo de legitimar o golpe/invasão e que usou de maneira irresponsável e banal a transfobia como arma de guerra suja. Além disso grande parte dos nossos pertences de mais valor ainda estão na Nem. Só conseguimos “liberar” os equipamentos do Ponto de Cultura (sim, éramos ponto de cultura municipal e espaço de encontros do Foro Estadual dos Pontos de Cultura e de vários GTs). De novo, apropriação indébita de bens não é um erro, é crime. 

 

Todas entendemos a extrema importância de espaços seguros para as pessoas trans como a Casa Nem. O problema é que esses espaços se construam destruindo os sonhos, os projetos e as vidas de outras pessoas. Por que Indianara não buscou – ou invadiu – um outro espaço? Pois por covardia mesmo. Porque ela sabia que a gente nunca iria chamar a polícia. As pessoas da Nuvem sabiam fazer bons projetos, encontros e boas festas, mas não souberam lidar com violência e nem quiseram aprender.

 

Em relação a judicialização, acho que vc não entendeu que não temos nenhum tipo de ação jurídica com a NEM. São os donos do imóvel que tem uma ação de despejo e reclamação das dividas e custas judiciais contra as pessoas da nuvem que tem o nome no contrato (duas pessoas novas, sem nenhum tipo de propriedade, um sem trabalho fixo, o outro com trabalho mal remunerado). Em setembro de 2016 avisamos, também no fbk, que o processo de despejo começaria e que as pessoas que apoiavam a Nem deveriam se mobilizar para arrumar fiador e assumir o contrato ou haveria despejo. O processo de despejo começou em dezembro. 

 

Indianara e a Nem poderiam ter aproveitado sua grande rede de apoios para regularizar o contrato como prometido, realizar alguma ação de arrecadação mensal tipo uma vakinha recorrente, e poderiam ter negociado o valor do aluguel com os donos do imóvel. Mas para Indianara não é suficiente ter roubado perversamente o imóvel de um coletivo; ela quer que esse coletivo pague os aluguéis desse imóvel que a Nem usa. 

 

As pessoas que apoiam a NEM poderiam buscar possibilidades de sustentabilidade, mas o único que foi feito foi uma vakinha iniciada por uma exnuvem em novembro que em março deixou de existir. Por que? Porque Indianara, de fato, quer que o despejo aconteça. Um despejo muito dramático que será convenientemente utilizado para aumentar o mito da grande lutadora pelos direitos das trans, mesmo que vidas sejam postas em perigo. 

 

Que vc quer que a gente faça? Toda tentativa de mediação foi negada, nunca houve dialogo, nunca houve desejo de buscar soluções. A gente foi sistemática e cruelmente enganada durante um ANO e MEIO alargando a agonia! A última enganação foi no dia 5 de fevereiro, nesse dia recebemos um e-mail da advogada da Nem falando que “estamos com toda a documentação pronta”, desde então silêncio total. O que fazer? A gente não gosta de treta no facebook, é um desgaste emocional tremendo, e essa é uma das razões de que muitas pessoas não consigam se pronunciar e de que muitas pessoas ainda achem que a Nuvem “transmutou” em Nem. Mas o importante agora é que as pessoas saibam da situação real da dívida e que se mobilizem para buscar soluções que possam garantir a nossa liberação urgente e a continuação do projeto Casa Nem no imóvel atual ou num outro imóvel.

 

Vc fala de exposição belicosa. Siga o hashtag #liberanuvem, leia os posts da galera que apoiou o golpe, leia os posts de Indianara cheios de ameaças, algumas delas de morte. Veja o tom das pessoas da nuvem, veja vc mesma onde esteve nesta historia o tom belicoso. Há centenas de pessoas que frequentavam a Nuvem e que não ousam falar nada, nem questionar, nem duvidar publicamente para não ser escrachados. Vc fala de tom belicoso? Mais belicoso deveria ser, e mais belicoso seria se as pessoas não tivessem tanto medo de falar livremente. 

 

Para acabar, e desculpa o textão, vc pergunta que tem a ver o Psol com esta historia. Pois é simples. Não queremos que o espaço que ainda está sob a nossa responsabilidade continue sendo usado para atividades do partido. Queremos que a uma pessoa que se apresenta como vereadora suplente do PSOL, o partido lhe exija um comportamento ético, simples assim. 

 

De qualquer jeito Indianara já está queimada dentro do PSOL RJ, não só pelos crimes cometidos com a Nuvem, mas porque o pessoal já sacou da sua desonestidade por outras muitas guerras que ela abriu com todo tipo de gente do partido, incluindo mulheres trans. A última: o arrombamento do Espaço Plinio do gabinete do Renato Cinco, que nada falou ate agora por medo a ser chamados de transfóbicos. Sempre é a mesma tática. Usar a violência para provocar uma reação que será usada como transfobia. Usar as pessoas e fabricar fatos para ir ganhando espaço e poder. Todas achamos que as pessoas trans devem ganhar espaço e poder, mas não de maneira perversa, essas atitudes só fazem mal ao movimento."

 

(Apoiar a NEM é apoiar que o projeto assuma a responsabilidade pelo espaço que usa, apoiar a transrevolução é denunciar as práticas desonestas de suas lideranças que prejudicam a todo o movimento.)

 

Mas apoiar a Casa Nem silenciando a maneira escrota como ela nasceu e ela continua existindo hoje, não é apoiar o movimento trans, é apoiar a minimização, relativização e o silenciamento dos crimes cometidos por Indianara para se apropriar (e com isso destruir ) um dos poucos espaços autónomos de cultura viva que existiam na cidade: golpe, roubo, difamação, manipulações, mentiras, apropriação dos nossos bens que ainda continuam lá e ameaças varias incluindo ameaça de morte).

Mas apoiar a Casa Nem silenciando a maneira escrota como ela nasceu e ela continua existindo hoje, não é apoiar o movimento trans, é apoiar a minimização, relativização e o silenciamento dos crimes cometidos por Indianara para se apropriar (e com isso destruir) um dos poucos espaços autónomos de cultura viva que existiam na cidade.

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